Sabe aqueles dias em que você acorda e se pergunta o porquê de estar vivo? Tem sido assim com Yuri todos os dias nos últimos meses. Ele acorda e fica olhando o teto do seu quarto, e vê as marcas de infiltração que estão se alastrando por todo apartamento. Isso faz ele lembrar que precisa conversar com o Sr. Matos sobre o valor do aluguel.
Yuri levantou e deu uma olhada pela janela. Ele vê a praça cheia de crianças brincando felizes, velhinhos rindo jogando damas (ou será que estão olhando as babás com seus vestidos brancos?) e se pergunta: Como alguém pode estar feliz a essa hora da manhã?
Então ele lembra que já foi feliz assim, ele lembra de quando adorava acordar cedo nas manhãs de domingo para caminhar na praia com ela. Ela... Joana. Aquela que ele tinha deixado escapar de sua vida de uma forma tão besta.
Foi nessa hora que Madame Branca (sua gata com o pelo negro como a noite, sem um fio de outra cor) apareceu pedindo comida e tirando seu dono dessa “viagem ao passado”. Para satisfazer a bichana ele foi à cozinha pegar uma lata de comida e aproveitou para ligar a cafeteira.
Depois de servir a comida à Madame Branca ele sentou ao seu lado e ficou acariciando seu pelo macio e brilhoso. Foi quando o cheiro de café vindo da cozinha o fez voltar ao passado outra vez.
Veio até ele a lembrança das incontáveis vezes que acordou sentindo esse cheiro de café e que quando levantava da cama olhava para a cozinha e via aquela cena linda. A mulher mais linda do mundo – porque é assim que um homem apaixonado ver vê o alvo de sua paixão – preparando o café da manhã vestida apenas coma aquela sua blusa larga.
Com um despertador que nos tira de um sonho bom, o celular de Yuri toca. Ele olha o número e se pergunta: O que o Leonardo quer ligando pra mim a essa hora da manhã?
Quando ele atende, mal tem tempo de dizer alô e já escuta a voz sempre alegre, e muitas vezes irritante, de seu melhor amigo:
- Vê se não vai esquecer que você combinou de almoçar aqui em casa hoje.
É claro que ele tinha esquecido, e também não lembrava o porquê de ter aceitado essa idéia idiota de um almoço de domingo na casa do Leo, com sua esposa chata e uma amiga solteirona dela. Ele sabia que isso não iria acabar bem.
- Pode deixar que eu não esqueci. – disse Yuri na maior cara de pau – Tenho que levar alguma coisa?
- Traz umas duas garrafas daquele vinho que a gente bebe. E não esquece daquele seu melhor sorriso. – disse Leo rindo.
- Valeu. E não esquece de ir se foder quando tiver tempo. – falou Yuri e desligou o telefone na cara do amigo.
Depois se jogou na cama e ficou imaginando o tormento que seria passar a tarde toda na casa do amigo. Não pelo Leo – com quem ele já estava acostumado – mas sim por todo o resto.
Continua...

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